terça-feira, 22 de maio de 2012

Uma vela para Dario - Dalton Trevisan

Este texto faz parte dos 100 melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva.

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.



Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores", Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.

Alice Ruiz é convidada do "Livros que Amei"

Futura, 22h30, livre. A poetisa Alice Ruiz fala sobre a importância dos livros "Alguns Poemas", de Emily Dickinson, e "O Segundo Sexo", de Simone de Beauvoir, em sua vida, na atração que vai ao ar hoje.

Curitibano Dalton Trevisan vence Prêmio Camões

O escritor brasileiro Dalton Trevisan ganhou o Prêmio Camões de Literatura 2012, o mais importante da língua portuguesa. O autor vai receber 100 mil euros (cerca de R$ 260 mil). O anúncio foi feito na manhã de ontem, em Lisboa.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Carlos Fuentes guiou a literatura espanhola para a modernidade

O escritor mexicano Carlos Fuentes, que morreu nesta terça-feira aos 83 anos, foi um intelectual que questionou durante toda a vida o seu país pela incapacidade de construir uma democracia mais autêntica e que, a partir da literatura, encaminhou à narrativa em língua espanhola para a modernidade. 

Romance de Formação


Olá, professores e alunos!! 
Assistam a esse documentário!! Ele tem muito a nos ensinar!!

"O Corvo" cria versão estranha para morte de Allan Poe

Ao contrário do que o título possa sugerir, "O Corvo", que estreia nesta sexta-feira (18), não é uma adaptação do homônimo poema de Edgar Allan Poe.
Dirigido por James McTeigue ("V de Vingança"), o longa cria uma versão para a estranha e inexplicada morte do escritor, que ocorreu poucos dias depois de ser encontrado delirando em um parque nos EUA, em 1849. 
John Cusack é quem interpreta o poeta que, em Baltimore (EUA) no século 19, passa por uma crise criativa e financeira, além de problemas com o alcoolismo. Ele também vive um romance com Emily Hamilton (Alice Eve), proibido pelo pai da garota. 
Mas um assassino em série começa a agir na cidade, inspirado nas mortes descritas nas histórias de Poe. Fields (Luke Evans), detetive do caso, recruta o escritor para ajudar a desvendar o criminoso.
A partir daí, o longa pinta o poeta como um homem que luta contra o crime como em uma história de detetives, que poderia muito bem ter sido escrita por Arthur Conan Doyle.

O OUTRO 

Em 1994, após muitas polêmicas, "O Corvo", dirigido por Alex Proyas, foi lançado. Mas este tampouco tinha algo em comum com o poema de Poe. O filme é baseado em uma história em quadrinhos homônima escrita por James O'Barr. 
O longa de Proyas carrega uma aura de maldição após os acidentes que ocorreram durante as filmagens, incluindo a morte de Brandon Lee, ator principal e filho de Bruce Lee, mestre das artes marciais. 
Ironicamente, no filme, Brandon Lee interpreta Eric Draven, um jovem roqueiro que foi violentamente assassinado na véspera de seu casamento. Guiado por um corvo, Eric volta do mundo dos mortos para se vingar. 
Durante a gravação de uma cena, Lee foi alvejado por outro ator do filme com uma pistola que deveria estar carregada com balas de festim. Na ocasião, ele carregava um saco com sangue falso.
Antes disso, outros participantes do filme já tinham ido parar no hospital. Um eletricista levou um choque em um cabo de alta-tensão, um carpinteiro feriu gravemente a mão e outro empregado chocou seu carro contra os cenários do filme.